Pesquisa e instrumentação de um workspace de IA que gera peças jurídicas
Testes de primeiro uso, validação com especialista e analytics de soft launch para promotores e procuradores que geram peças processuais
Uma legaltech construiu um workspace de IA generativa onde promotores e procuradores montam um caso (documentos importados do sistema processual mais seus próprios PDFs) e geram resumos, estratégias e minutas de peças. Entrei no kickoff como product designer e conduzi o ciclo completo de evidência do produto: planejei o que medir e o que testar, coletei dados em sessões moderadas e no Mixpanel, estruturei os achados para que cada um chegasse a um responsável e levei o resultado a quem toma decisões de produto.
Entre 30 de julho e 11 de agosto de 2026, a base qualitativa chegou a quatro sessões (três com o mesmo especialista de um Ministério Público estadual e uma com a procuradora-geral de um município) e aos relatórios de quatro ativações de clientes, que consolidei numa leitura única entre clientes. Nas duas sessões de primeiro uso, os achados graves estavam no conteúdo gerado. A instabilidade da IA apareceu em todas as sessões com o especialista e em três dos quatro órgãos ativados. No soft launch, 1 de 12 importações de caso foi concluída num cliente. Construí a base de evidência que levou a performance à liderança de produto e ao pipeline de desenvolvimento como prioridade urgente.
- Papel
- Product Designer, liderando design e pesquisa com usuários, desde o kickoff
- Minha parte
- Plano de rastreamento de uso e leitura dos dados, planejamento e moderação da pesquisa, análise e síntese dos achados entre clientes, melhorias de interface no workspace, adoção do design system na plataforma
- Não é meu
- O primeiro protótipo navegável e várias telas vieram da agência externa. O refino dos prompts é de uma pessoa dedicada do time. A correção de performance e a decisão de pausar ativações são de engenharia e operações.
Como a evidência circulou
Planejar, coletar, estruturar, escalar. Montei o rastreamento e a pesquisa desde o kickoff, li os dados do soft launch, classifiquei cada achado por severidade e camada e levei a evidência ao time de produto, à liderança e de volta ao participante para validação.
- Planejar
- Plano de tagueamento depois da falha do board de analytics e um roteiro de sete tarefas ligado a hipóteses.
- Coletar
- Quatro sessões moderadas entre 30 de julho e 11 de agosto, mais o board do soft launch.
- Estruturar
- Severidade de Nielsen, camada e hipótese; síntese entre clientes; Kano para os pedidos.
- Escalar
- Deck para produto e liderança, validação com o especialista, resumos para a unidade de negócio, alerta ao CS.
Ver o registro completo (17 entradas)
| Etapa | O que fiz | Registro |
|---|---|---|
| Planejar | Abri um chamado quando os 22 cards do board de analytics retornaram erro e escrevi um plano de tagueamento com pontos de entrada e funis do ciclo principal | Jul 2026 |
| Planejar | Escrevi um roteiro de sete tarefas em torno das ações que entregam valor (encontrar um caso, abrir o estudo, gerar pelas ações rápidas, gerar uma peça pelo chat, enviar uma pergunta, salvar em PDF ou copiar, importar uma fonte), cada tarefa ligada a uma hipótese | Jul 2026 |
| Coletar | Moderei uma sessão de primeiro uso com think-aloud e SUS, 2h27 de gravação | 30 e 31 jul 2026 |
| Coletar | Moderei uma sessão com a procuradora-geral de um município, a pedido dela, na versão anterior do produto | 3 ago 2026 |
| Coletar | Entrevista com especialista: o participante da sessão 1 revisou o vídeo e o relatório da sessão de 3 de agosto | 6 ago 2026 |
| Coletar | Comparação conduzida pelo participante: mesmo inquérito, mesmo prompt, o produto contra um assistente de uso geral e contra a denúncia de fato protocolada | 11 ago 2026 |
| Coletar | Li o board de soft launch de um cliente e auditei suas conclusões, corrigindo 4 que estavam desatualizadas | 26 ago 2026 |
| Estruturar | Classifiquei os achados por severidade de Nielsen, por camada (desenvolvimento, usabilidade, produto/IA) e cada hipótese do roteiro como validada, invalidada ou inconclusiva, com as tarefas não executadas listadas para reagendamento | Jul e ago 2026 |
| Estruturar | Consolidei os relatórios de quatro ativações de clientes numa síntese única, ordenando cada achado por quantos órgãos o sustentaram | Ago 2026 |
| Estruturar | Reclassifiquei a severidade no nível do programa (dois achados elevados a 4) e classifiquei os pedidos dos usuários com o modelo Kano | Ago 2026 |
| Estruturar | Escrevi resumos de uso por cliente para dois órgãos | 27 e 28 ago 2026 |
| Escalar | Apresentei as duas sessões de primeiro uso ao time de produto e à liderança num único deck | Ago 2026 |
| Escalar | Enviei ao especialista um documento de validação com o registro do time sobre três sessões, para ele conferir o conteúdo técnico | Ago 2026 |
| Escalar | Conectei o especialista à pessoa do time que refina os prompts; entrega dos modelos reais de peças dele agendada | 12 ago 2026 |
| Escalar | Publiquei os resultados das sessões no canal de evidências de usuário do time | Desde ago 2026 |
| Escalar | Enviei os resumos por cliente ao head da unidade de negócio | 27 e 28 ago 2026 |
| Escalar | Avisei o grupo de CS que um problema crítico de performance na importação e na geração estava bloqueando o uso nos dois Ministérios Públicos ativados, e que o time estava tratando naquela semana | 3 set 2026 |
O problema
Os usuários já tinham uma alternativa que funcionava, e eram de dois tipos.
- Um assistente de uso geral.
- O especialista do Ministério Público estadual baixava PDFs do sistema do tribunal, processava no assistente de IA de uso geral licenciado pela instituição e colava o resultado no sistema de redação do órgão.
- Uma ferramenta de IA jurídica especializada.
- A procuradora-geral do município usava um concorrente todos os dias. Procuradores de outros dois órgãos ativados também.
O produto tinha que superar as duas em qualidade e velocidade, num domínio em que uma frase imprecisa pode acabar numa peça protocolada. A segunda referência elevou a régua: quem já tinha uma ferramenta de IA jurídica comparava a minuta com o resultado dessa ferramenta, e não com o próprio trabalho manual.
Rastreamento desde o início
Em julho, o board de analytics do produto retornava erro nos 22 cards, então o time não tinha dados de uso antes do soft launch. Abri um chamado e escrevi um plano de tagueamento para o time acompanhar o uso desde a primeira ativação: uma convenção de nomes para todos os eventos, uma propriedade para os três pontos de entrada a partir do sistema processual (painel de tarefas, pasta do processo, editor) e funis para o ciclo principal (abrir, iniciar geração, concluir, exportar).
Registrei o que o plano ainda não cobria: o papel do usuário, o tempo de carregamento, a qualidade da extração e o CSAT.
Pesquisa de primeiro uso
Planejei e moderei sessões de primeiro uso com think-aloud, um roteiro de tarefas e o questionário SUS. O participante usou o produto primeiro sem orientação, para não enviesar o questionário, e a conversa aberta veio depois. Classifiquei os achados com a escala de severidade de Nielsen, que combina frequência, impacto e persistência, e adaptei para o domínio: imprecisão jurídica subiu para severidade 3 porque pode chegar a uma peça protocolada.
Sessão 1 · Ministério Público estadual, 30 e 31 de julho
Um especialista de um Ministério Público estadual com prática avançada em direito penal, no primeiro uso da versão atual. 2h27 de gravação, SUS 57,5: abaixo da referência de mercado de 68 e acima de 50.
- O que funcionou.
- Ele encontrou o caso e criou o estudo sem ajuda, foi ao card de ações rápidas e gerou um resumo sem hesitar, e leu partes, juízo, pedidos e histórico do processo na tela inicial sem abrir os arquivos. O valor que ele nomeou foi a integração: um ambiente para o que hoje exige três sistemas.
- Hipóteses do roteiro.
- 4 validadas, 2 invalidadas, 5 inconclusivas. As duas invalidadas: ele não entendeu para onde foi o documento gerado (cerca de 8 minutos entre gerar e encontrar na primeira vez, e a dificuldade voltou duas vezes), e o controle “desanexar” não foi entendido sem explicação verbal, dada duas vezes. Três tarefas não foram executadas e foram para a sessão seguinte.
- O achado mais grave.
- Perguntada sobre a dosimetria, a IA afirmou uma pena de 3 anos e 6 meses e respondeu que a sentença não estava nos arquivos acessíveis. A sentença estava nos arquivos importados.
- Conteúdo.
- Boa base, com lacunas nos pontos de decisão da prática penal: dosimetria, prescrição, dois réus com desfechos diferentes, situação recursal. Dois erros conceituais: uma ação de improbidade tratada como parte do processo criminal, e uma câmara criminal atribuída à comarca em vez do tribunal.
- Confiança.
- A primeira pergunta dele, antes de qualquer tarefa, foi se o PDF que ele subiu com a credencial institucional ficaria dentro do ambiente.
“Se está me dizendo que tem uma condenação de 3 anos e 6 meses, é porque ela tem a sentença. Só não mostrou o documento.”
| Achado | Camada | Freq. | Impacto | Nota |
|---|---|---|---|---|
| Imprecisões jurídicas no conteúdo gerado | Produto / IA | média | alto | 3* |
| Sem rastreabilidade de uma afirmação até a fonte | Usabilidade | alta | médio | 3 |
| IA afirma uma pena cuja sentença não consegue localizar nem fundamentar | Produto / IA | média | alto | 3 |
| Resumo ou minuta não gera ou dá erro | Desenvolvimento | alta | médio | 3 |
| Chat não retorna nenhuma resposta | Desenvolvimento | baixa | bloqueante | 3 |
| A leitura do caso é interrompida a cada documento | Usabilidade | alta | médio | 3 |
| Encontrar o documento gerado (cerca de 8 min) | Usabilidade | média | médio | 2 |
| “Refinar com IA” aparece de forma intermitente | Usabilidade | média | médio | 2 |
| Espaço morto e ações rápidas tomando a tela | Usabilidade | alta | baixo | 2 |
Apenas a sessão 1 (30 e 31 de julho). *Elevado de 2 para 3 por ressalva de domínio: num sistema jurídico, um termo ou citação jurídica errada pode passar despercebido e chegar à peça protocolada. Método: 1 sessão, 1 usuário. A frequência se refere a ocorrências dentro da sessão e não mede frequência na base de usuários. A transcrição teve contaminação de áudio, então os achados de severidade 3 foram marcados para confirmação na gravação de tela.
Não houve catástrofe de usabilidade. Dos seis achados de severidade 3, três estavam no núcleo de IA (erros de geração, uma pergunta no chat sem resposta, a sentença que a IA disse não encontrar), um subiu pela ressalva de domínio e dois subiram pela persistência na atividade que domina o dia do usuário: ler textos longos. Rastreabilidade até a fonte foi o pedido mais repetido da sessão, em quatro superfícies: eventos do resumo, histórico do processo, um processo desmembrado e cada item da minuta.
Sessão 2 · Procuradoria municipal, 3 de agosto
A procuradora-geral de um município, usuária diária de uma ferramenta de IA jurídica especializada, na versão anterior do produto. A reunião foi pedida por ela. SUS 37,5.
A navegação não causou dificuldade: ela encontrou seus workspaces, abriu casos, adicionou e removeu fontes e usou as skills disponíveis. A rejeição foi pelo conteúdo, e se manteve em todas as skills testadas (contestação, petições, recursos): uma minuta sem citação legal apesar de a lei estar nos arquivos importados, o argumento principal transformado em outro e o próprio modelo, adicionado como fonte, ignorado. As perguntas sobre a interface eram de vocabulário: “fonte”, “documento de contexto” e “estratégia” não são as palavras que procuradores usam.
“Imagino que poderia ser muito melhor do que o que usamos hoje. Do jeito que está, fica bem aquém.”
Ela também descreveu por que confia na ferramenta que usa: antes da minuta, ela mostra os recursos, buscas, fontes e estratégia que está usando, com links para a origem; traz lei e jurisprudência sem ser pedida; e aplica os modelos do órgão com um nível de aderência que ela escolhe.
Lendo as duas sessões juntas
Os SUS são de versões e perfis de usuário diferentes, então não comparei. Coloquei as duas sessões lado a lado nos mesmos temas, sem concluir uma causa comum:
- A recuperação de fontes falhou nas duas versões: um documento presente nos arquivos importados não chegou à resposta.
- Os dois participantes pediram para ver a origem da informação antes de aceitar o resultado.
- Os dois completaram o fluxo sem ajuda, e os dois criticaram o conteúdo.
- Os termos da interface precisaram de tradução nas duas sessões.
- Os veredictos sobre o conteúdo foram diferentes, assim como a referência dos participantes: quem já tinha uma ferramenta de IA jurídica julgou comparando com ela.
De achados a requisitos
As sessões geraram um benchmark de requisitos:
- Conteúdo sem reconstruir o contexto.
- A lei e a jurisprudência aplicáveis chegam antes do prompt.
- Modelos institucionais com nível de aderência.
- Flexível, rígido ou modelo.
- Um processo de geração visível.
- Cada afirmação ligada ao documento de origem.
- Jurisprudência verificável.
- De fontes oficiais.
- Leitura construída sobre convenções que os usuários já conhecem.
- A árvore de eventos do sistema do tribunal à esquerda e o documento à direita, um modo de leitura com margens estreitas, edição por teclado no editor. Sem suporte a teclado, o especialista disse que muita gente no órgão escreve num editor de texto e cola o texto.
- Escopo de dados e confidencialidade explícitos.
- Pré-condição para uso institucional.
As explicações jurídicas do especialista durante a sessão viraram uma base de requisitos de domínio para o conteúdo gerado: artigos específicos do Código Penal e do Código de Processo Penal, regras de citação e intimação, prazos recursais e o manual de redação do órgão.
Validação com especialista e testes de campo
A partir do segundo encontro, o participante da sessão 1 passou a atuar como especialista de domínio para o time.
Validação cruzada, 6 de agosto
O especialista assistiu ao vídeo da sessão 2 e comentou cada um dos oito achados. Codifiquei as respostas com uma matriz de convergência (Farmer et al., 2006, com a categoria de complementaridade) e separei o que ele observou, o que relatou da própria experiência e o que era opinião. Resultado: dois achados confirmados, dois confirmados com ressalva, um aprofundado em requisito, três fora do escopo do encontro e nenhuma divergência.
- Confirmado e explicado.
- A minuta ficou nos fatos do caso e deixou de fora o enquadramento jurídico de que a procuradora precisava. Ele nomeou a doutrina que faltava.
- Ressalva de método.
- Ele apontou que a comparação da sessão 2 misturava duas causas: o produto recebeu só um comando de atalho, enquanto o concorrente recebeu um prompt que explicava o caso. Um teste com e sem contexto foi desenhado no encontro para separar a qualidade do prompt da capacidade da ferramenta.
- Aprofundado.
- A personalização de estilo tem três camadas: o indivíduo, a instituição (manual de redação e regras não escritas da revisão interna) e o tipo de órgão.
Comparação conduzida pelo participante, 11 de agosto
O especialista rodou o mesmo PDF de inquérito no produto e no assistente de uso geral, com um prompt idêntico e deliberadamente curto (“elabore a denúncia do caso”), e leu os dois contra a denúncia de fato protocolada no processo.
- Conteúdo.
- “Os dois trouxeram respostas satisfatórias.” O produto incluiu um pedido de reparação mínima à vítima, apoiado no laudo de avaliação dos bens nos autos. O assistente de uso geral e a denúncia protocolada deixaram de fora. Foi o primeiro registro no programa da ferramenta indo além da peça escrita por humano num item.
- Lacunas.
- O produto listou 11 testemunhas contra um limite legal de 8 e afirmou uma qualificadora sem narrar como ela ocorreu. As duas ferramentas anteciparam provas que pertencem a uma fase posterior.
- Velocidade e estabilidade.
- O assistente foi mais rápido, mais curto e mais objetivo. O produto foi mais lento e às vezes não respondeu: “o Estúdio às vezes tem esse problema, e aí inviabiliza o trabalho.” Uma demonstração para um stakeholder tinha falhado pelo mesmo motivo.
Dois resultados foram para o time. O método ficou para o programa: comparar cada geração com o documento de fato protocolado. A direção de produto foi consolidada no encontro: embutir regras jurídicas fixas no sistema por fase e tipo de documento (limite de testemunhas, narração das qualificadoras, pedido de reparação quando há laudo) em vez de depender de um prompt detalhado do usuário. Uma hipótese caiu no mesmo encontro: a API de um agregador de buscas jurídicas não é fonte oficial de jurisprudência.
Teste A/B de um modo de geração beta
Mesmo caso e mesmo prompt. O modo beta produziu uma denúncia mais correta (um crime, sem segunda imputação indevida, formatação do órgão, páginas analisadas e fontes listadas) em cerca de 3 minutos. O participante disse que o resultado poderia ser copiado e protocolado. A indisponibilidade do modelo travou o teste por cerca de 8 minutos.
O que os dados mostraram no soft launch
Ativações de clientes, 31 de julho a 6 de agosto
Consolidei os relatórios de quatro ativações em procuradorias municipais e ordenei cada achado por quantos órgãos o sustentaram.
- Todo procurador que usava o concorrente especializado rejeitou a minuta na comparação direta, por falta de argumentação jurídica ou por jurisprudência e formatação.
- Velocidade e estabilidade apareceram em três órgãos. Num deles, uma importação de fonte ainda carregava depois de 16 minutos, dentro da ativação. Em outro, um procurador escreveu que a velocidade de processamento era a primeira coisa a corrigir, antes de qualquer outra melhoria; nenhum dos 3 procuradores ativados apareceu no log de acesso de 10 de agosto. Num terceiro, 5 de 8 procuradores ficaram ativos na semana da ativação.
- Um uso que o time considerava de baixo valor entregou valor por conta própria: uma procuradora de execução fiscal usou o chat para achar informações nos autos, fez em segundos o que levava horas e mostrou aos colegas, que passaram a usar do mesmo jeito.
Dados de uso
- 1 de 12importações de caso concluídas num cliente
- 27%de sucesso na geração no mesmo cliente (3 de 11); “Erro” foi o status mais frequente
- 0 de 3importações de caso concluídas num segundo cliente, onde 1 de 3 usuários gerou alguma coisa
Enviei resumos de uso por cliente dos dois órgãos ao head da unidade de negócio. Ele definiu quatro indicadores mínimos para o time: casos iniciados, concluídos e com erro; resumos e minutas gerados; interações no chat; e usuários que fizeram cada ação pelo menos uma vez.
Resultado
Depois da terceira sessão com o especialista, reclassifiquei os achados no nível do programa, com as ativações como evidência de frequência. Dois achados foram para severidade 4, “corrigir antes do lançamento”: a instabilidade da IA (chat sem resposta, erros de geração, respostas que param no meio; quatro ocorrências com o especialista e relatos convergentes de três órgãos ativados) e a sentença que a IA disse não ter. Pedidos e pontos positivos foram para uma classificação Kano, marcada como inferencial até ser validada com o questionário pareado dos usuários. Requisitos básicos (rastreabilidade, escopo de dados, status de geração, nomeação de arquivos, edição por teclado, importação autônoma do processo) formaram uma fila separada. O restante foi para uma matriz de impacto por esforço com votação silenciosa (NN/g), em que UX e produto votam impacto e engenharia vota esforço.
Até a terceira sessão, o time tinha entregado parte da fila: status de geração e estados de erro nas ações rápidas, acesso direto ao documento gerado, análise de performance da busca, feedback de erros mapeados, uma aba de arquivos revisada e nomeação de documentos, tudo agendado para verificação com o especialista em 13 de agosto.
As sessões qualitativas e os dados do soft launch apontaram para a mesma causa. A engenharia confirmou um gargalo no pipeline de documentos, a PM enquadrou a lentidão e a falta de feedback como o bloqueio ao engajamento, uma correção foi lançada e novas ativações de clientes foram pausadas enquanto ela era revisada.
Construí a base de evidência que levou a performance à liderança de produto e ao pipeline de desenvolvimento como prioridade urgente.
Padronizando pesquisa e telemetria
Criei duas skills do Claude para que relatórios de pesquisa e planos de telemetria sigam um padrão único, independentemente de quem escreve.
Skill de relatório de pesquisa
1 semana a menos
em cada relatório de pesquisa
Identificar e classificar os achados, aplicar a metodologia, validar as informações e montar a apresentação do relatório.
Transforma o material bruto da sessão (transcrição, gravação, respostas do SUS, capturas de tela) num relatório e num post curto para o canal de evidências de usuário, sempre na mesma estrutura. A página 2 responde primeiro a quatro perguntas: a sessão foi positiva, mista ou negativa e por quê; quais ações o participante concluiu, concluiu com ajuda ou não concluiu; os acertos, cada um com sua evidência; os erros, cada um com sua severidade.
- Observado e declarado marcados à parte.
- Cada afirmação é marcada como vista na tela, relato do participante, opinião do participante ou informação do time. Informação do time nunca entra no relatório. Baseado na orientação de Nielsen de observar o que os usuários fazem e não depender do que dizem (NN/g, 2001).
- Três camadas, três responsáveis.
- Achados de Desenvolvimento, Usabilidade e Produto/IA vão para responsáveis diferentes no time.
- Sessões encadeadas.
- Achados anteriores voltam como temas de partida. Cada um recebe um status: confirmado, confirmado e aprofundado, melhoria relatada, melhoria observada ou novo.
- Pedidos registrados por área.
- Os pedidos dos usuários vão para Produto, Design ou Negócio, marcados como pontuais ou recorrentes, e priorizados pelo que o participante disse que importava.
A skill aplica regras de escrita em ordem:
- Toda frase é verificável, com o timestamp da transcrição entre colchetes; inferência vira hipótese explícita.
- Um número substitui um adjetivo. Um fato por frase; detalhe que não muda uma decisão vai para as notas.
- Uma lista fechada de palavras de ênfase proibidas fora de citações (real, crucial, essencial e outras), e nenhuma antítese retórica.
- Citações são literais e curtas, com quem disse e quando, e mantêm o jeito de falar e a gramática como foram ditos.
Skill de planejamento de telemetria
4 dias a menos
em cada plano de telemetria
Da identificação dos eventos de uma tela à conferência da documentação.
O catálogo de eventos do Mixpanel é fechado: um valor fora da lista é descartado em silêncio, quebrando o histórico da métrica. Planejar a telemetria de uma tela exigia conhecer os catálogos de produção e homologação, os valores permitidos de cada propriedade, as regras de privacidade e o formato de documento do time. A skill leva um PM ou designer de uma tela a um plano de tagueamento, com dois pontos de checagem humana.
- Catálogo primeiro.
- Os eventos de produção e homologação são regenerados a partir de exportações do Lexicon por um script Python. O Lexicon não exporta valores de propriedades customizadas, então uma segunda referência registra cada valor e sua origem.
- Entra a tela, sai o inventário.
- Cada elemento interativo é listado com o rótulo visível exato e comparado com o catálogo como existente, extensão ou novo. Itens que não podem ser verificados vão para uma fila de confirmação.
- Três camadas de propriedades.
- Transversal (quem, qual entidade), contexto (onde o usuário está) e ação (o que aconteceu).
- Duas paradas de validação.
- A análise pausa para aprovação antes de o documento ser escrito, e um validador em Python checa o plano gerado em busca de propriedades proibidas, unidades faltando e formato das seções. Um plano só sai com zero erros.
Próximos passos
Uma avaliação técnica da latência e um novo teste com uma usuária ativa de um dos clientes quando houver melhoria substancial de performance.
O que aprendi
Em produtos de IA, o teste de usabilidade e o teste de conteúdo são testes separados. Na sessão 2, a navegação não causou dificuldade e a participante rejeitou o conteúdo. Hoje escrevo os roteiros para que cada sessão gere um achado separado para navegação e para qualidade do resultado.
Referências
- Nielsen, J. Severity Ratings for Usability Problems (abre em nova aba). NN/g.
- Nielsen, J. First Rule of Usability? Don’t Listen to Users (abre em nova aba). NN/g, 2001.
- Farmer, T. et al. (2006). Developing and implementing a triangulation protocol for qualitative health research. Qualitative Health Research, 16(3).
- Lincoln, Y. S. e Guba, E. G. (1985). Naturalistic Inquiry. Sage.
- Kano, N. et al. (1984). Attractive quality and must-be quality. Journal of the Japanese Society for Quality Control, 14(2).