Diagnosticando por que usuários culpavam o SAJ pelas quedas dos tribunais
Oito entrevistas com o time de suporte e uma análise heurística por trás de um painel de status das integrações com tribunais
O SAJ Online depende dos sistemas dos tribunais para peticionar, abrir autos e receber intimações. Quando esses sistemas falhavam, a interface não dava o motivo, e os usuários culpavam o SAJ. Analisei oito entrevistas com o time de suporte à luz das heurísticas de Nielsen. Junto com a pessoa de UX research, transformei os achados em dez conclusões de design e num rascunho de painel de status. O projeto parou após a estimativa da engenharia, e o painel não foi construído.
- Papel
- Senior Product Designer
- Time
- 1 UX researcher, 1 PM, 4 desenvolvedores
- Período
- Jul a out 2025. Entrevistas de 7 a 11 de jul, análise heurística em 16 de jul, rascunho da interface de 16 a 25 de jul, apresentação à engenharia em 24 de jul, kickoff em 1º de ago, estimativa da engenharia de 12 de ago a 13 de out
- Minha parte
- Análise heurística, as dez conclusões de design (com a pessoa de UX research), rascunho da interface e sua apresentação à engenharia
- Não é meu
- Plano de pesquisa, recrutamento e moderação das sessões, conduzidos pela pessoa de UX research
- Status
- Não construído. Pesquisa marcada como despriorizada. Interface, handoff e refinamento não iniciados. O teste de usabilidade foi cancelado durante o recrutamento.
O problema
As falhas de integração aconteciam toda semana e, para alguns clientes, quase todo dia. O PJe era o sistema mais instável, seguido pelo SEEU. Peticionar era a ação mais crítica, porque está ligada a prazos processuais. Autos e intimações vinham logo depois.
O usuário tentava uma ação, ela falhava, tentava outra, e a interface não dava o motivo. O suporte de primeiro nível (N1) ficava sabendo das quedas pelas reclamações em grupos de WhatsApp, muitas vezes ao mesmo tempo que o usuário, e diagnosticava por tentativa e erro.
Havia também uma restrição política. Em vários Ministérios Públicos existe um acordo implícito de não dizer que o problema está no tribunal. Sem como apontar a origem, o SAJ levava a culpa.
Pesquisa e análise heurística
A pessoa de UX research entrevistou oito pessoas: o time de consultoria, o suporte N1 de cinco Ministérios Públicos estaduais (MPAL, MPCE, MPMS, MPRS e MPSC), a coordenação de N2 do SAJ Online e a coordenação do SAJ 5. Li as entrevistas tabuladas à luz de quatro heurísticas de Nielsen, aplicadas a sistemas complexos:
- Visibilidade do status do sistema
- Correspondência entre o sistema e o mundo real
- Prevenção de erros
- Ajudar os usuários a reconhecer, diagnosticar e se recuperar de erros
As opiniões sobre o painel variaram. Uma pessoa do suporte N1 disse que seria “uma ajuda imensa”. Outras previram que os usuários continuariam abrindo chamados, porque não leem mensagens de erro. A coordenação do SAJ 5 temia que o painel aumentasse o volume de chamados.
- 8entrevistas com o time de suporte
- 4heurísticas de Nielsen aplicadas a sistemas complexos
- 10conclusões de design
Dez conclusões de design
Cada conclusão liga um achado da pesquisa a uma decisão de interface e registra o que outra melhoria do produto já cobria.
- 1. Peticionar é a ação mais crítica.
- Afeta prazos e vem primeiro no status. Uma melhoria separada (reenviar a petição após falha de comunicação com o tribunal) já cobria esse fluxo, então o status não precisava agir sobre ele.
- 2. Autos e intimações também são sensíveis.
- O envio de anexos e o recebimento de intimações geram chamados recorrentes. Não havia melhoria prevista para autos, e um cenário de erro dedicado dependia do time responsável por essa área.
- 3. Prevenção de erros.
- O status sinaliza a instabilidade antes da ação. Para autos e intimações, a proposta são cenários de erro dedicados.
- 4. Uma falha para o trabalho.
- O ideal seria sugerir outra tarefa quando uma ação está indisponível. As próximas tarefas dos usuários não estavam mapeadas, então a opção viável é dizer que a instabilidade está sendo tratada e sugerir outras tarefas de forma geral.
- 5. Informação clara reduz chamados.
- As frases são curtas, dizem que o time já está agindo e nomeiam as ações: “Peticionamento, acesso aos autos e envio e recebimento de intimações funcionando normalmente” e “Instabilidade no peticionamento, no acesso aos autos ou no envio e recebimento de intimações”.
- 6. Status por funcionalidade.
- Peticionamento, autos e intimações aparecem separados, em dois estados: “Funcionando normalmente” e “Funcionando com instabilidade”. Os tooltips dizem “Este serviço está ativo e operando sem falhas agora” e “Este serviço está ativo, mas algumas tentativas estão falhando”.
- 7. Detalhes no hover ou no clique.
- Mostram o horário da última verificação, o serviço afetado e o andamento da correção. Desenhei duas opções. Opção 1: um botão no cabeçalho com ícone verde ou amarelo que abre um modal. Opção 2: o modal na barra lateral de Minha Conta, com um alerta e um botão de acesso quando há instabilidade.
- 8. Status dentro do fluxo da tarefa.
- O status aparece no momento da ação, por exemplo antes de enviar uma petição. Para o peticionamento, a melhoria existente já cobria esse ponto.
- 9. Confiabilidade percebida.
- Mostrar que as integrações são monitoradas reforça a confiança. A opção 2 deixa a falha mais evidente, porque dispara o alerta quando a falha acontece. A opção 1 é mais discreta e também pode mostrar o alerta.
- 10. Variações de contexto.
- Alguns usuários não leem mensagens de erro, e outros são mais técnicos. Os detalhes ficam no modal, e alertas e botões usam linguagem simples.
Resultado
Desenhei a interface no Figma entre 16 e 25 de julho e apresentei à engenharia em 24 de julho. O kickoff foi em 1º de agosto. A entrega estava prevista para o fim de setembro, mas a estimativa da engenharia foi de 12 de agosto a 13 de outubro. Nesse período, o recrutamento para o teste de usabilidade foi cancelado. Depois da estimativa, a pesquisa foi marcada como despriorizada, e o painel não foi construído.
O que aprendi
- Uma restrição política virou um requisito de linguagem.
- Alguns clientes não podem nomear o tribunal, então o status descreve a ação afetada e deixa a origem de fora. Isso permitiu que um único design servisse a todos os clientes.
- Ouvir só o suporte deixou uma lacuna.
- As previsões dos entrevistados sobre o efeito do painel nos chamados nunca foram checadas com usuários finais, porque o teste foi cancelado.
